Fernando Pessoa, demiurgo do desassossego: Ricardo Reis, entre o sol e o buraco negro
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Resumo
A heteronímia pessoana não é apenas um expediente literário, mas a instauração
de um cosmos filosófico original. Este ensaio considera esse cosmos a partir de dois polos: Alberto Caeiro (o Sol), que encarna a adesão imediata à existência sensível, e Fausto (o buraco negro), que experimenta o pensamento vertiginosamente. Entre a plenitude solar e a vertigem especulativa, Ricardo Reis habita o intervalo: sabe que o Destino e a morte são inexoráveis, mas em vez de se entregar ao desespero, faz da criação poética o gesto que lhe permite durar na tensão. É nesse movimento que reside a originalidade filosófica da obra de Pessoa: consciência e existência não se conciliam numa síntese, mas se convertem num impulso criador contínuo. O desassossego deixa de ser um estado psicológico para se afirmar como condição ontológica e força demiúrgica. Com isso, a experiência poético-filosófica de Pessoa interpela o próprio campo da filosofia, sugerindo que a criação literária pode constituir uma via legítima e irredutível ao discurso conceitual para elaborar questões que o pensamento, por si só, não resolve.
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