O papel da ficção na biologia de Descartes a Kant

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Isabel Coelho Fragelli

Resumo

Trata-se de mostrar brevemente como se dá, no plano das ciências da vida, a passagem do mecanicismo racionalista do século XVII (centrado nas ideias de Descartes) para o empirismo do século XVIII (baseado no paradigma newtoniano), o qual, ao pretender livrar essas ciências da "fábula" cartesiana, acaba elaborando suas próprias "ficções". Se, por um lado, o mecanicismo racionalista parece fracassar no esforço de deduzir as formas orgânicas a partir de princípios e modelos a priori, por outro, o empirismo conduz, nesse contexto, às teorias mais improváveis supostamente baseadas na observação dos fenômenos. Por fim, na transição do século XVIII para o XIX, Kant afirma que a biologia não pode escapar das "ficções", mas seu uso terá de ser legitimado pela crítica.

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Artigos
Biografia do Autor

Isabel Coelho Fragelli, Universidade de São Paulo (USP)

Professora de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). É formada em Filosofia (2002-2007) e possui Doutorado Direto (2014) e Pós-Doutorado (2016-2019) pela mesma instituição. Realizou Pós-Doutorado (2014-2015) em Filosofia pela Université Paris 1 - Panthéon-Sorbonne (França). Possui conhecimentos especializados na área de História da Filosofia Moderna, tendo direcionado suas pesquisas principalmente para o estudo da filosofia alemã do século XVIII. É autora de diversos artigos acadêmicos e de traduções (do francês e do alemão) relacionados a seu objeto de pesquisa.

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